comments powered by Disqus
Amazônia / Ciência

Peixe da Amazônia é recordista mundial de longas distâncias, afirma pesquisa  

Estudo mostra que o dourado chega a percorrer 11,6 mil quilômetros, exclusivamente, em água doce- uma marca que, segundo os pesquisadores, não é alcançada por nenhum outro animal

domingo 19 de fevereiro de 2017 - 11:45 AM

Estadão Conteúdo / portal@d24am.com

Movimentos migratórios do dourado ainda têm sido mal documentados. Foto: Divulgação

São Paulo - Se existisse uma competição mundial de longas distâncias em água doce, o dourado (Brachyplatystoma rousseauxii) seria o grande campeão. A conclusão é de um estudo internacional que mapeou o ciclo de migração desse peixe que só existe na bacia do Rio Amazonas.

A pesquisa, que teve seus resultados publicados na revista Scientific Reports, do grupo Nature, foi liderada por cientistas do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em seu ciclo de vida, o dourado chega a percorrer 11,6 mil quilômetros, exclusivamente, em água doce - uma marca que não é alcançada por nenhum outro animal, segundo os autores do estudo.

A migração épica do dourado começa com os animais já adultos, que partem do estuário do Rio Amazonas, perto do Oceano Atlântico, e sobem o rio até as áreas de desova na cordilheira dos Andes.

Segundo os pesquisadores, os peixes adultos que sobem aos Andes jamais retornam à foz do Amazonas, mas os peixes que acabaram de nascer o fazem, migrando milhares de quilômetros na direção contrária, para completar o ciclo. No estuário, os filhotes se tornam adultos e recomeçam a jornada.

Além do dourado - que é um dos peixes economicamente mais importantes da região -, os cientistas estudaram, também, outros três peixes semelhantes da bacia amazônica.

“Essa é a primeira vez que uma pesquisa científica abarcou toda a gama dessas espécies de peixes, alguns dos quais se espalham entre os Andes e o estuário do Amazonas, chegando ao Oceano Atlântico”, disse o autor principal da pesquisa, Ronaldo Barthem, do MPEG. “Esses resultados podem agora ajudar a traçar estratégias efetivas de manejo desses peixes, que são importantes para a indústria pesqueira da região”, concluir Barthem.

O estudo fez parte de um projeto internacional coordenado pela Sociedade de Conservação da Vida Selvagem (WCS, na sigla em inglês), da ONG The Nature Conservancy (TNC) e o Centro Nacional de Análises e Sínteses Ecológicas, dos Estados Unidos e da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

Segundo os autores da pesquisa, os planos para a construção de inúmeras barragens, as operações de mineração e o desmatamento podem colocar em risco a longa migração do dourado e das outras espécies, afetando a indústria pesqueira.

“Uma das maiores ameaças ao dourado e outras espécies de peixes é o desenvolvimento de infraestrutura na região dos Andes, que poderá ter um pesado impacto na área de desova desses animais”, disse outro dos autores do estudo, Michael Goulding, da WCS.

Enquanto as rotas de migração de peixes como o salmão e as enguias são bem conhecidas, os movimentos migratórios do dourado têm sido menos compreendidos e mal documentados, segundo os autores, embora já se suspeitasse que esse peixe tivesse um dos maiores ciclos de migração em água doce no mundo. 

VEJA TAMBÉM NO D24am