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Amazônia / História

Semana da Anistia debate repressão à homossexualidade na ditadura

O presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, ressaltou a importância de se discutir a repressão autoritária e homofóbica no país.

segunda-feira 24 de agosto de 2015 - 7:03 PM

Agência Brasil / portal@d24am.com

Brasília - A Semana da Anistia foi lançada hoje (24), em Brasília, com o evento inaugural tendo como tema a Repressão à Homossexualidade na Ditadura e à Homofobia na Democracia. O objetivo da semana é lembrar os 36 anos da Lei de Anistia, com atividades em todo o país até o próximo domingo (30).

Durante o evento foi exibido o filme Favela Gay, produzido pelo cineasta Cacá Diegues, que esteve presente, e dirigido por Rodrigo Felha. Após a exibição, houve debate com acadêmicos, militantes e autoridades vinculadas à promoção da memória e da verdade e ao enfrentamento da homofobia.

Houve ainda uma homenagem a três pessoas que se destacaram na defesa dos direitos LGBT (Léscbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais): Sandra Maria Carnio, presa e torturada pelo regime militar (1964-1985); Marisa Fernandes, pioneira no ativismo lésbico no Brasil e integrante do coletivo de feministas lésbicas de São Paulo; e o historiador norte-americano James Green, cujos estudos sobre ditadura e homossexualidade influenciaram o relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

O presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, ressaltou a importância de se discutir a repressão autoritária e homofóbica no país: “É um momento de reflexão em torno do papel da memória e de afirmação dos direitos humanos. Serão inúmeras atividades (durante a Semana da Anistia) em todo o Brasil, para gerar ambientes de mobilização e articulação social. Queremos gerar conscientização e repúdio a toda forma de violação de direitos”.


Paulo Abrão ressaltou ainda que a perseguição na época da ditadura não era apenas política. “Durante muito tempo, não identificávamos outras formas de violência. E agora essa dimensão chega à questão da orientação sexual. Esses atos simbólicos como o que estamos fazendo hoje são atos de empoderamento que permitem que as pessoas façam uma auto-reflexão e percebam que aquilo que sofreram no passado também estava combinado com a questão da orientação sexual”, explicou.

O deputado federal Jean Wyllis afirmou que trazer este debate foi um ato corajoso por parte da Comissão de Anistia. “É fundamental a criação de um espaço para discutir a dimensão da violência que se empreendeu durante o período da ditadura militar”.

O transexual João W. Nery participou do evento e falou sobre as dificuldades enfrentadas pelos transexuais em relação aos documentos pessoais. Apesar de reconhecer que o nome social foi uma conquista, pois evita o constrangimento em algumas situações, ele afirma que sempre que precisa usar seus documentos originais sente-se exposto. “Não somos cidadãos. Pagamos impostos e nem o direito ao nosso nome temos”, afirmou.

“Quando eu nasci a palavra “transexual” não existia no Brasil. Eu também nunca me senti uma lésbica, então eu era um E.T. Eu tinha 30 anos de idade quando conheci o primeiro transexual. Quando me operei, as cirurgias eram criminosas, eram consideradas mutilação do humano”, afirmou Nery.

Ele contou que, com a mudança de sexo, perdeu todo o seu currículo escolar. “Eu era psicóloga, dava aula em três universidades no Rio de Janeiro. Eu fazia mestrado e, no momento em que tirei a documentação masculina, virei um analfabeto. Não tenho aposentadoria e o Estado nunca me ressarciu desta perda”.

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