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Amazônia / Meio Ambiente

Incidência de tempestades em Manaus cresce 50% por causa da urbanização

Estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCTI) indica que urbanização fez crescer a taxa de descargas elétricas sobre a cidade nos últimos 30 anos.

segunda-feira 6 de janeiro de 2014 - 7:00 AM

Manaus está localizada em uma das três áreas chamadas de chaminés de raios, que têm as maiores incidências desse fenômeno no mundo Foto: Chico Batata/20/01/05

ManausO Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCTI) estima que tenha havido um crescimento de 50% na taxa de tempestades com raios em Manaus nos últimos 30 anos. A taxa de descargas elétricas na cidade é de 13,45 raios por km² ao ano. Pesquisadores atribui isso a urbanização da capital amazonense e região. 

Os dados são do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe, laboratório que já tinha feito uma análise semelhante para São Paulo e outras capitais, onde a urbanização também foi acompanhada de um aumento da ocorrência de raios.

O geofísico Osmar Pinto Junior, responsável pelo estudo, destaca outra importante descoberta. Manaus está localizada em uma ‘chaminé de raios’ – local que tem as maiores incidências de raios do mundo. Além daquela área, só existem mais duas assim no mundo, na África Central e na Indonésia. “Isso significa que qualquer efeito observado nessa região tem influência direta nas atividades dos raios em todo o mundo e, consequentemente, no sistema climático”, explicou.

O processo de expansão das cidades já é bem conhecido por resultar nas chamadas ‘ilhas de calor’ – a região fica muito mais quente que seu entorno, principalmente na comparação com a área rural. Esse ar mais quente, por ser mais leve que o frio, é jogado para cima quando ocorre alguma instabilidade da atmosfera, como uma frente fria. Em altitudes mais elevadas, que são mais frias, o ar quente acaba se transformando em gotas de água, depois nuvens e, consequentemente, em chuvas e raios.

Esse efeito já tinha sido observado em várias outras cidades do mundo. No caso de Manaus, porém, os pesquisadores imaginavam que a presença da floresta ao redor da cidade poderia minimizar esse efeito. Mas não. “A verdade é que a floresta não consegue inibir o efeito da urbanização. Ele acaba sendo muito mais poderoso”, disse o

O trabalho do grupo foi pioneiro no mundo em fazer esse tipo de análise para uma cidade inserida em uma área florestal. “O trabalho traz um apelo importante: outras cidades daquela região que crescerem demais podem vir a sofrer o mesmo que está acontecendo com Manaus. A urbanização predomina”, disse o pesquisador. Em 35 anos, de 1973 a 2008, a área da capital amazonense passou de 91 quilômetros para 242 quilômetros quadrados.

Nesse período, a temperatura média da cidade subiu 0,7°C, enquanto o aumento médio dos trópicos foi de 0,4°C. Já em comparação com a floresta, a temperatura máxima diária da área urbana é 3°C maior.

Para avaliar o impacto disso no aumento de tempestades e raios, os pesquisadores usaram dados de 2004 a 2013 de uma rede global de monitoramento de raios (WWLLN) e imagens de raios de 1997 a 2013 obtidas por satélite. Ambas informações mostraram o aumento na ocorrência de descargas elétricas em Manaus. Regiões ao redor da cidade não experimentaram o mesmo avanço, o que reforça o impacto da ilha de calor.

O estudo do Inpe sobre a relação direta da urbanização de Manaus com o aumento significativo na incidência de raios foi aceito para publicação no periódico ‘American Journal of Climate Change’.

Área urbana é 3ºC mais quente do que a floresta

Com mais prédios, concreto e asfalto tomando o lugar da vegetação nativa, o chamado efeito ilha urbana de calor, fenômeno conhecido há tempos por paulistanos e cariocas, também apareceu com força nas duas principais capitais da Região Norte, Manaus e Belém.

Numa mesma hora do dia, a temperatura nas áreas dessas cidades mais densamente povoadas e ocupadas por construções e edifícios é consistentemente maior do que nas zonas rurais próximas, onde a floresta se mantém preservada.

Os dados sobre ilhas de calor são mais nítidos no caso de Manaus, hoje a sétima cidade brasileira mais populosa, com mais de 1,8 milhão de habitantes, à frente de capitais do Nordeste, como Recife, e do Sul, como Porto Alegre e Curitiba. A diferença de temperatura entre as partes mais urbanizadas da metrópole amazonense e uma área de floresta distante cerca de 30 quilômetros, a Reserva Biológica do Cuieiras atinge picos de mais de 3ºC em 5 dos 12 meses do ano.

Esses resultados se baseiam em informações colhidas hora a hora por quatro estações meteorológicas entre 2000 e 2008 e constam de um artigo científico publicado no dia 8 de agosto do ano passado no site da revista Meteorological Aplications por Diego Souza e Regina Alvalá, ex-pesquisadores do Inpe e atualmente no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em Cachoeira Paulista.

O trabalho também indica que a atmosfera das áreas urbanizadas de Manaus se tornou mais seca do que a das florestas vizinhas.

Durante o período analisado, a umidade relativa do ar nas zonas centrais da capital amazonense foi, em média, 1,7% menor do que nas matas adjacentes. Essa distinção alcançou seu nível máximo em fevereiro, no meio da estação mais chuvosa, quando a cidade chegou a ser 3,5% mais seca do que a floresta. “Esses dados mostram claramente o efeito ilha de calor em Manaus”, afirma Regina, engenheira cartográfica especializada no mapeamento de usos e cobertura da terra para modelagem meteorológica.

 

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