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Amazônia / Meio Ambiente

Pesquisa mostra alta mortalidade de árvores até 100 Km depois de Balbina

 Segundo o Inpa, o estudo  se concentrou nos distúrbios ambientais causados em áreas de igapós da Usina de Balbina e pesquisadores constataram alterações no padrão de inundação do Uatumã

domingo 7 de maio de 2017 - 10:30 AM

Da Redação / portal@d24am.com

A equipe analisou um conjunto de 32 indicadores hidrológicos, comparando o período antes da implementação da barragem e durante a operação da UHE. Foto: Grupo de Pesquisa Maua/ Inpa/ Acervo

Manaus - Mais de 20 anos depois da implantação da Usina Hidrelétrica de Balbina, no Rio Uatumã, no Amazonas, árvores adaptadas a prolongados períodos de inundação continuam morrendo, e áreas mais baixas das florestas alagáveis dessa região são dominadas por milhares árvores mortas, conhecidas como paliteiros. Estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/ MCTIC) mostrou esses impactos concentrando-se nos igapós que ficam até 100 quilômetros depois da barragem.

“Nossa hipótese principal é que as árvores morreram devido aos distúrbios do regime hidrológico associados à operação de Balbina”, disse o pesquisador do Inpa Jochen Schöngart, ao apontar que o estudo investigou a conexão entre a represa e as árvores mortas de Macrolobium acaciifolium, conhecida como arapari, na área.

Segundo o pesquisador, o diferencial da pesquisa é que enquanto a maioria dos estudos avalia os impactos sociais, econômicos e ambientais das hidrelétricas na área do reservatório e nos arredores da barragem, os estudiosos do grupo de pesquisa Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (Maua/Inpa) se concentraram nos distúrbios ambientais causados em áreas de igapó a jusante da Usina de Balbina.

As espécies de árvores mortas de M. acaciifolium, da família de Fabaceae, e outras, como a Eschweilera tenuifolia (Lecythidaceae), da família da castanha-do-pará, estavam concentradas em áreas sujeitas a inundações ao longo do Rio Uatumã, a mais de 100 quilômetros de distância depois da usina.

O pesquisador explica que essas árvores possuem mecanismos sofisticados de adaptações morfológicas, anatômicas, fisiológicas e bioquímicas que lhes permitem tolerar inundações longas de até 300 dias por ano, como ocorre com o arapari.

 

Resultados

No estudo, os pesquisadores constataram alterações no padrão de inundação do Rio Uatumã a jusante da usina hidrelétrica. A equipe analisou um conjunto de 32 indicadores hidrológicos biologicamente relevantes, comparando o período antes da implementação da barragem (1973-1982) e durante a operação da UHE (1991-2012).

Antes da construção da UHE o Rio Uatumã apresentou um característico pulso de inundação com uma fase de cheia e seca durante o ano, comum para os rios da bacia amazônica. Este padrão praticamente desapareceu no período pós-barragem, depois do início da operação da hidrelétrica de Balbina. Isso aumentou os níveis mínimos e diminuiu os níveis máximos da água, resultando em uma supressão da fase terrestre durante vários anos consecutivos, principalmente, no período de 1999-2011, ultrapassando a capacidade de tolerância de inundação destas espécies arbóreas.

 

Impactos ambientais

Em geral, a construção de represas hidrelétricas na bacia amazônica impacta direta e indiretamente o habitat, a estrutura e o funcionamento do ecossistema de florestas alagáveis a jusante da barragem. As usinas modificam o regime hidrológico natural, retém sólidos e nutrientes no reservatório, alteram a temperatura e a transparência da água, e obstruem vias de migração de peixes e outros organismos aquáticos.

Árvores adaptadas ao pulso de inundação com uma fase de cheia e uma fase de seca por ano não possuem as adaptações necessárias para sobreviver inundações de vários anos consecutivos. “Por este motivo, a espécie estudada e outras nas mesmas posições topográficas morreram em consequência das alterações do regime de inundação causadas pela UHE de Balbina”, explica Schöngart.

 

Morte aumenta a emissão de gases de efeito estufa, diz estudo

A pesquisa mostrou que a mortalidade em grande escala aumenta ainda mais a emissão de gases de efeito estufa para atmosfera pela decomposição da madeira, e piora o balanço da quantidade de gases emitida por unidade de energia produzida (Megawatt-hora).

Os resultados foram apresentados no artigo ‘A mortalidade das árvores de uma espécie adaptada às inundações em resposta às mudanças hidrográficas causadas por uma represa amazônica‘, que tem como primeiro autor Cyro Assahira, mestre pelo programa de Pós-Graduação em Botânica do Inpa. Além de Assahira e Schöngart, é coautora do artigo a pesquisadora do Inpa Maria Teresa Fernandez Piedade, líder do grupo Maua. Pesquisadores do Instituto Max-Planck também participaram do estudo.  

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