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Esportes / Lutas

Falta de lei representa risco no MMA

A Mistura de Artes Marciais (MMA) não é considerada esporte no Brasil e eventos proliferam

domingo 29 de janeiro de 2017 - 10:00 AM

Thiago Fernando / portal@d24am.com

O Big Way Fight é um dos eventos de MMA realizados em Manaus. Foto: Divulgação

Manaus - Em constante crescimento em números de praticantes e fãs, o Mixed Martial Arts (MMA) ainda não é considerado esporte no Brasil. O projeto de lei que busca legalizar a modalidade no País tramita no Congresso há quatro anos, sem conseguir êxito. Por causa disso, hoje, qualquer pessoa pode criar e realizar um evento de MMA.

Mesmo considerado um celeiro de grandes lutadores, o Amazonas sofre com a falta de estrutura em alguns eventos. Um dos representantes do Estado na maior organização do mundo, o Ultimate Fighting Championship (UFC), o lutador Adriano Martins revelou que já lutou de graça em organizações, no início da carreira. 

“Graças a Deus, consegui chegar a uma grande organização, mas olho por muitos que sonham em crescer e chegar onde estou. Eles buscam chegar ao UFC ou em outro evento. Se no meu começo, tivesse a mesma cabeça de hoje, não sei se teria a mesma força e garra para chegar até aqui. Eu acredito que não. Tive que passar por muitas coisas para chegar até aqui. Teve eventos nacionais que lutei de graça. Foi difícil. A caminhada é longa e árdua”, disse o atleta, que avalia como ‘vergonhoso’ o tratamento de alguns eventos com o pós-luta dos atletas.

“No Brasil, os promotores já colocam que não se responsabilizam pelos problemas pós-luta. Acho isso um absurdo, até porque, se for colocar em números o que você recebe por lutas no Brasil, não paga uma cirurgia, se for preciso fazer. Você vai ter que correr atrás do Sistema Único de Saúde (SUS). Eles não dão nenhum tipo de assistência. Infelizmente, os atletas têm que passar por isso para conquistar o espaço. Isso é muito sério”, citou Adriano, comparando com o que acontece nos Estados Unidos.

“Todos os eventos nos Estados Unidos são obrigados a dar toda assistência aos atletas, pequeno ou grande. No UFC, você sai da luta e passa por uma avaliação médica. Depois disso, caso você queira ir ao hospital, eles te levam e dão todas as assistências. Você tem até 30 dias, depois da luta, para pedir auxílio. Eles têm um seguro que é pago, tipo mil dólares, e você tem o direito de cuidar da contusão”, afirmou o lutador, que já ajudou um amigo, em Manaus, que teve um problema no maxilar, após uma luta, e não foi amparado pelos contratantes do evento. 

Detentora do cinturão do Rei da Selva Combat, a lutadora Mayana Kellen citou que a pior parte para o atleta é justamente o pós-luta. “O pós-luta do atleta, até em alguns eventos grandes, é difícil. Os eventos têm os olhares virados para os atletas que dão retorno. Os demais ficam sem nada. Lutador não tem salário. Os eventos pequenos são piores. Até mesmo quando você tiver algum problema de emergência, eles vão te levar para um pronto-socorro e pronto. A ambulância vai ter que voltar para que as outras lutas aconteçam”, disse Mayana.

Bolsas pagas com ingressos

Outra realidade triste encontrada pelos lutadores amazonenses são os baixos valores pagos por combate. A maioria recebe apenas R$ 500 por luta e, algumas vezes, esse valor é pago em ingressos. “O atleta sofre muito. Quase todos os eventos pagam os atletas com ingresso. Me recuso a receber assim, porque trabalho lutando e não sendo cambista. Mas garanto que a maioria dos eventos de Manaus pagam os atletas dessa forma”, disse a campeã.

Federação busca padronizar regras e exige medidas protetivas

Mesmo com os problemas citados pelos atletas, Manaus é considerada uma referência em termos de organização. Um dos fatores que contribuíram para isso foi a criação de órgãos que chancelam os eventos no Estado: a Federação Amazonense de Mixed Martial Arts (Famma) e a Comissão Atlética de Mixed Martial Arts (Camma).

O vice-presidente da Famma, Sammy Dias, explicou que ambas as organizações só apoiam a realização de eventos após os responsáveis aceitarem seguir as normais exigidas.

“A Famma só chancela os eventos quando eles entram no ‘check-list’ da federação. Analisamos desde o casamento das lutas, para não ter um combate desigual, a pesagem e a arbitragem. Tentamos atender isso. Não aceitamos algumas coisas como o casamento desigual. Isso é covardia. Verificamos o retrospecto de todos os atletas. O evento é obrigado a dar os primeiros atendimentos e ajudar na recuperação, até que o atleta volte a lutar”, disse Dias, ao informar que são cobrados atestados médicos dos atletas, antes de fecharem contrato para chancelar. 

“Ao chancelar, a federação obriga que o evento dê todo o suporte para o atleta, antes e depois do evento. Todos os atletas passam por um rigoroso exame para ver se estão aptos. Após a luta, eles são atendidos pelos médicos, para tratar as lesões. No MMA, quando o atleta pega um knockdown, ele é obrigado a fazer um exame neurológico, para ver se não ficou nenhuma sequela desse golpe e se ele pode voltar a lutar, mesmo que ele saia vitorioso. Acredito que, assim, ajudamos na organização do esporte e damos chance de trabalho para vários jovens que sonham em viver do mundo das lutas”, comentou o organizador.

Médicos tentam criar cultura preventiva

Médico com especialização em saúde da família, Ricardo Amaral Filho, mais conhecido como Dr. Motoca, busca, ao lado dos médicos George Nobre Vieira e Michel Luiz, criar uma cultura preventiva nos eventos esportivos em Manaus. Os três profissionais fazem parte do Moto Clube Lawrence MC, que apoia o esporte amazonense e ajuda os atletas na área da saúde. Eles acompanham os lutadores, não apenas durante o evento, mas também durante a preparação.

Para Amaral, é fundamental que os eventos sejam chancelados por federações, que devem ter uma comissão técnica. “A comissão busca preservar a integridade física do atleta durante a luta e fazer uma avaliação inicial, após o duelo. Infelizmente, observamos que nem todos os atletas, treinadores e eventos dão a real importância para este trabalho. Os eventos que participamos exigem atestado de aptidão física do atleta para lutar”, explicou o médico.

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