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Amazônia / Povos

Projeto une literatura e dramaturgia na comunidade indígena Três Unidos, no AM

Encerramento do Projeto de Incentivo à Leitura e Escrita (Incenturita) reuniu 23 jovens ribeirinhos que apresentaram duas peças na comunidade; projeto foi desenvolvido pela FAS

terça-feira 22 de novembro de 2016 - 2:18 PM

Sérgio Rodrigues / portald24am@gmail.com

Jovens apresentaram peça sobre a lenda do açaí na comunidade Três Unidos. Foto: Luiz Maudonnet/ FAS

Manaus – Quando começou a buscar recursos para melhorar a vida na Três Unidos, o líder Waldemir Triucuxuri talvez não tenha imaginado que, 25 anos após a criação da comunidade, novas gerações estariam atuando em um palco às margens do Rio Cuieiras, se aproximando da dramaturgia e literatura em um projeto que impactou a vida de centenas de jovens ribeirinhos. No domingo (20), o Projeto de Incentivo à Leitura e Escrita (Incenturita), desenvolvido pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), apresentou o resultado de um processo árduo, mas recompensador: peças encenadas pelos próprios comunitários e o despertar do interesse pela arte.

Localizada dentro da Área de Preservação Ambiental (APA) do Rio Negro, uma das 16 Unidades de Conservação  (UCs) atendidas pela FAS, a comunidade indígena Três Unidos fica a 60 km da cidade de Manaus e tem cerca 20 famílias, todos da etnia Kambeba. O nome é uma referência à história de três irmãos indígenas que foram os primeiros a ir morar no local em 1975. Quando um deles morreu em decorrência de uma doença, os outros irmãos decidiram partir para Manaus. A terra foi demarcada como “Três Unidos” em homenagem ao trio. 


Núcleo Assy Manana, na comunidade Três Unidos
Foto: Sérgio Rodrigues

Em 2011, com a construção do Núcleo de Conservação e Sustentabilidade Assy Manana da FAS, a comunidade Kambeba ganhou uma escola de ensino fundamental e médio e, um ano depois, o Incenturita começou a ser desenvolvido. Mas Waldemir lembra em detalhes de quando chegou ao local na década de 90, com esposa e cinco filhos, em busca de uma vida melhor em um ambiente ainda inóspito. 

“Eu cheguei aqui em 19 de novembro de 1991, às duas da tarde, e aqui ainda havia o rastro de onças na beira do rio. A tendência não era formar uma comunidade, mas ter uma casa para morar com a família. Quando comecei a falar com as autoridades para buscar medicamentos, instalaram um posto de saúde para atender as comunidades que já existiam. Foi crescendo, o povo Kambeba começou a chegar. Fico muito satisfeito hoje com esse projeto que atinge comunidades indígenas e ribeirinhas, coisas que há 15 anos atrás eles não tinham oportunidade, e agora eles podem estudar e virar profissionais”, disse o líder, de 57 anos.


Waldemir Triucuxuri, líder da comunidade Três Unidos
Foto: Sérgio Rodrigues
 

Projeto
De acordo com o supervisor de Arte e Educação da FAS, Adriano Rodrigues, o Incenturita começou como uma roda de leitura, onde cada aluno lia uma obra selecionada, mas neste ano a metodologia mudou. Como uma forma de causar um interesse ainda maior nos alunos, Adriano apostou no lúdico e o projeto agregou a dramaturgia ao processo, que contou com 23 participantes de 11 a 26 anos.

Para a nova metodologia, as atividades foram divididas em três módulos: conhecimento de si mesmo, elaboração de roteiro teatral e apresentação. O projeto, criado em parceria com Samsung, Banco Bradesco e o Instituto Alair Martins, foi realizado em três núcleos da FAS este ano.

“Não queríamos criar atores ou artistas, mas leitores assíduos e admiradores da arte”, explica Adriano. “O projeto surgiu para incentivar o interesse da leitura. Percebemos que as bibliotecas não estavam sendo visitadas, que não havia essa rotina de ir e escolher um livro. O projeto acabou se tornando grandioso e esse processo de aprendizagem de desinibição , de compreensão da escrita, do texto e da fala, mudaram os alunos e também transformaram quem estavam próximos deles”, disse.

Obras de Miltom Hatoum, Plínio Marcos e Shakespeare começaram a entrar na rotina de leitura dos alunos, segundo Adriano, e o interesse pelos livros na biblioteca cresceu. “Tivemos muitas reações que nos emocionaram, quem a gente achava que não fosse gostar de Shakespeare de repente se encanta, e começa a querer conhecer mais da obra. Então o objetivo do projeto está sendo alcançado”.

Além do interesse pela arte literária e dramatúrgica, um dos maiores benefícios do projeto foi a mudança no comportamento dos alunos, que passaram a se expressar e se relacionar melhor com a família e a comunidade. 


Braian foi escalado para narrar as peças
Foto: Sérgio Rodrigues


A dupla Braian Menezes Rodrigues, 17, e Jáver Alcântara de Lima, 19, é um exemplo dessa transformação. Eles foram escalados para se tornar os “Clows”, figuras cômicas que narraram as duas peças apresentadas à comunidade. Pelo comportamento brincalhão, os jovens foram escolhidos pelo professor e por mostrarem potencial para a comédia. 

“Meu comportamento mudou bastante, eu era um menino bem relaxado eu não estava nem aí para as pessoas, sem saber se elas passavam dificuldade ou não, e agora, quando estou conversando, sinto a necessidade de conhecer as pessoas e ser mais sensível, mais maduro. Minha família me apoiou muito para fazer o projeto e é melhor do que ficar em casa, né?”, brincou Braian, que pensa em continuar fazendo teatro.

Jáver sentiu facilidade para atuar na peça, apesar de nunca ter representado antes. “Eu tinha feito palhaçadas por aí, mas nunca tinha atuado”, explicou. “Entrar no projeto mudou tudo em mim, meu jeito, caráter e até para falar melhor. Penso em daqui pra frente ser ator”, comentou.


Jáver Alcântara diz que o comportamento brincalhão ajudou nas peças
Foto: Sérgio Rodrigues

Apresentação
As peças que Jáver e Braian apresentaram na noite de domingo uniam conscientização ambiental e folclore indígena. Escritas e dirigidas pelo supervisor Adriano Rodrigues, as apresentações tocaram no tema da reciclagem e da lenda do açaí. A primeira contava a história de Recicláudio, um menino ribeirinho que aprende a importância da coleta seletiva de lixo para a sustentabilidade da comunidade. 


A dupla Jáver e Braian, os "Clowns", eram o alívio cômico das peças
Foto: Sérgio Rodrigues

 
Quebrando a quarta parede, Adriano, que interpretava Recicláudio, falava diretamente com a plateia, assim como os outros personagens da peça, perguntando se os comunitários sabiam da importância da reciclagem.

Além de introduzir as peças, Jáver e Braian entravam em cena e garantiam as risadas do público até na apresentação mais dramática, que contava a lenda da tribo que deu origem ao açaí.

Veja trechos das apresentações



Se a primeira peça era leve, com características cômicas, a segunda mostrou a capacidade dos alunos em interpretar emoções complexas. Após uma decisão drástica do cacique devido à escassez de alimentos, todos os recém-nascidos da tribo são mortos e as mães, incluindo a filha do chefe da tribo, Iaçã, entram em depressão.

Monólogos extensos e um figurino produzido especialmente para os alunos prenderam a atenção da comunidade, que acompanhou a apresentação à margem do Rio Cueiras. Ao final da peça, com a morte de Iaçã, que dá surgimento ao fruto, o público aplaudiu intensamente o trabalho dos atores formados pelo projeto.


Peça sobre a lenda do açaí mostrou capacidade de interpretação dos alunos
Foto: Luiz Maudonnet/ FAS

Os 23 participantes do Incenturita ganharam um certificado de conclusão do curso e, de acordo com a FAS, há planos para expandir o projeto para mais três núcleos no ano que vem. Este ano, o projeto foi realizado em três núcleos nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro e Juma.

Para os próximos 25 anos da comunidade Três Unidos, o líder Waldemir Triucuxuri espera que o local seja uma vila e que continue conquistando melhorias para o povo Kambeba e para as comunidades em geral. “Eu vejo os jovens saindo daqui com uma profissão de professor, técnico, enfermeiro, atores ou atrizes, essa é a minha esperança. Eu espero que os jovens saibam aproveitar essa oportunidade porque só depende deles”.


Participantes do projeto receberam certificado de conclusão
Foto: Luiz Maudonnet/ FAS


Participantes do Incenturita se despedem do público
Foto: Luiz Maudonnet/ FAS



Margens do Rio Cueiras, onde está localizada a comunidade Três Unidos
Foto: Sérgio Rodrigues

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