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Notícias / Brasil

Europa barra carne de empresas brasileiras envolvidas em fraude

Bloco recomenda vigilância extra por parte de governos europeus; Coreia do Sul e China suspendem importação

segunda-feira 20 de março de 2017 - 10:15 AM

Estadão Conteúdo / portal@d24am.com

União Europeia pede que membros do bloco adotem "uma vigilância extra" ao tratar de qualquer produto brasileiro no setor de carnes. Foto: Reprodução

São Paulo - A Europa exige que todas as empresas envolvidas no escândalo da fraude da carne tenham seus produtos impedidos de entrar no mercado europeu e pede que membros do bloco adotem "uma vigilância extra" ao tratar de qualquer produto brasileiro no setor de carnes. Bruxelas confirmou que, se o Brasil não retirar essas companhias da lista de exportação, a União Europeia vai bloquear a entrada dos produtos.

Paralelamente, China e Coreia do Sul já informaram oficialmente ao Ministério da Agricultura a suspensão de importação de carnes brasileiras, em consequência das revelações da Operação Carne Fraca da Polícia Federal, deflagrada na sexta-feira. No caso da China, os embarques programados para lá foram suspensos por uma semana. Já a Coreia do Sul bloqueou apenas os embarques da BRF, especificamente.

 suspensão europeia foi anunciada pelo porta-voz da Comissão Europeia para assuntos de Saúde, Enrico Brivio, numa coletiva de imprensa em Bruxelas. "Estamos em um processo para garantir que todos aqueles envolvidos na fraude não possam exportar para a Europa", disse, lembrando que Bruxelas manteve "intensos contatos diplomáticos com o Brasil" nos últimos dias.  "Pedimos ações e esclarecimentos", disse. 

Brivio explicou que os europeus pediram no fim  de semana que as autoridades brasileiras retirassem da lista de exportadores todos aqueles citados no escândalo. "Agora, cabe ao Brasil seguir nosso pedido. Eles garantiram que fariam isso", disse à reportagem. "Depois veremos se isso de fato ocorreu e vamos continuar em contato com as autoridades brasileiras", indicou.

Segundo ele, a recomendação aos 28 governos europeus é de que sejam "extra-vigilantes" com todo o carregamento de carnes do Brasil e que "aumentem os controles nas fronteiras."

Brivio, porém, insiste que até agora nenhuma irregularidade foi registrada na entrada de carnes nacionais. "Mas pedimos vigilância e um aumento de controles", disse.   

Segundo ele, é provável que o setor mais afetado seja o de frangos. "Só uma pequena parte (do volume fraudado) parece ter sido exportado", disse. "Mas estamos avaliando a situação com o Brasil e pedindo esclarecimentos para garanir que todos os lados envolvidos sejam suspensos de vender para a Europa", indicou.

Daniel Rosario, porta-voz de Comércio da Europa, insistiu que, apesar do escândalo, o caso não deve afetar as negociações que começam nesta segunda-feira com o Mercosul, em Buenos Aires. 

Maior concorrente da carne brasileira no mercado europeu, os produtores irlandeses pedem oficialmente à Comissão Europeia o "embargo imediato de toda a importação de carne do Brasil ".

Em um comunicado emitido nesta segunda-feira (20), a entidade que representa o setor indicou que "a UE tem alertado de forma repetida sobre os riscos da importação de carne da América do Sul ", disse o presidente da entidade, Patrick Kent. “É ultrajante que a UE continue dando uma segunda chance ao Brasil, mesmo depois que o Escritório de Veterinária tenha produzido informes continuamente mostrando deficiências das práticas no Brasil”, disse. 

 “O pior de tudo é a tentativa de sacrificar a qualidade da produção de carne na Europa ao negociar um acordo comercial bilateral com os países da América do Sul”, atacou. “O impacto disso seria minar totalmente os produtores europeus e irlandeses, inundando a Europa com carne brasileira, barata e abaixo do padrão”, denunciou. 

 Na avaliação do produtor, os consumidores europeus não tem nada a temer, enquanto estiverem sendo abastecidos por produtos de “qualidade europeia”. “Fizemos grandes saltos e temos um setor altamente regulado e o mínimo que podermos esperar é que não sejamos sabotados por importações baratas”, disse. 

“Carne de qualidade custa dinheiro. A maioria dos consumidores europeus quer alimentar suas famílias com o melhor e chegou a vez de a UE priorizar saúde e agricultura viável, e não acordos estranhos”, afirmou Kent. 

“Chegou a hora de parar de sacrificar os produtores europeus, em troca de alguns bilhões a mais para um pequeno número de multinacionais”, denunciou. 

Nesta semana, o caso chegará ainda à Organização Mundial do Comércio. A entidade se reúne a partir de terça-feira para debater temas fitossanitário. 

Na agenda do encontro, fechada há dez dias, não constava nenhuma crítica à carne do Brasil. Mas a reportagem apurou que, desde a eclosão do novo caso, os principais parceiros comerciais se mobilizam para levantar o assunto durante a reunião. Diversos governos também indicaram que querem pedir reuniões bilaterais com o Brasil nesta semana para obter esclarecimentos sobre a fraude na carne. 

O Itamaraty, junto com técnicos do Ministério da Agricultura, se prepara para dar uma resposta, trazendo os detalhes da investigação da PF e tentando evitar um embargo. Mas, ao mesmo tempo, o governo vai insistir que o escândalo não envolveu exportações e que, portanto, uma suspensão do comércio não seria justificada. O governo também vai bater na tecla de que foram as autoridades nacionais quem investigaram e puniram o esquema e que, portanto, não tentam esconder o caso.  

Mas a reportagem apurou que parlamentares e produtores europeus passaram o fim de semana em contato para tentar incrementar o lobby e pressionar as autoridades europeias a rever seus planos de autorização de importação da carne nacional. Na sexta-feira, a reportagem revelou com exclusividade que as maiores cooperativas agrícolas da Europa (Copa e Cogeca) usariam o caso para pressionar os diplomatas europeus a frear novas concessões ao Mercosul. 

A pressão sobre Bruxelas, porém, passou a ser real no domingo. Na Irlanda, o partido Sinn Féin foi um dos que apelou publicamente para o fim das importações. O representante do partido para temas agrícolas, o deputado Martin Kenny, alertou que o caso brasileiro revela “as condições contra as quais os fazendeiros europeus precisam competir”. 

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