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Brasileiros ameaçados de deportação nos EUA buscam tutores para filhos

Medo de serem expulsos sem ter tempo de retirar a família do país leva imigrantes em situação irregular a procurar advogados para nomear guardiões

sábado 25 de fevereiro de 2017 - 5:56 PM

Estadão Conteúdo / portal@d24am.com

Chris Magno, filipino professor nos EUA, segura um cartaz pró-imigrantes e contra as novas medidas de Donald Trump. Foto: Christopher Millette/Erie Times-News via AP

WASHINGTON - O maior medo da brasileira Vanice é ser deportada dos EUA e deixar para trás o seu filho de 6 anos. Sem parentes no país, ele poderia ser colocado sob a tutela do Estado, uma situação que é rara, mas não impossível. Para se precaver e reduzir sua angústia, Vanice – o nome é fictício – decidiu elaborar um documento que autoriza uma amiga a ficar temporariamente com a criança e levá-la para o Brasil em caso de deportação da mãe.

As novas diretrizes para deportação anunciadas pelo governo de Donald Trump na terça-feira 21 provocaram pânico em comunidades de imigrantes e levaram muitos brasileiros a confrontar questões práticas sobre o destino dos filhos que nasceram no país e são cidadãos americanos. A providência mais imediata é o registro das crianças como brasileiras em um dos dez consulados espalhados pelos EUA. Com a medida, os pais comprovam que o filho tem dupla cidadania e um vínculo com o Brasil. Vanice foi além e consultou advogados para elaborar a procuração que confere os cuidados do filho temporariamente à amiga.

Outras mães que conversaram com o Estado não quiseram se identificar, por estarem em situação irregular nos EUA. “Eu sempre tive medo de ser deportada, mas quando meu filho nasceu o receio ficou muito maior”, disse Cristina A., mãe de um menino de 6 anos que é cidadão americano. “Tinha ataques de pânico quando saía de casa e pensava que poderia não voltar.” Após a vitória de Trump, em novembro, ela começou a fazer terapia a cada 15 dias para controlar o medo. 

Cristina disse que o primeiro pensamento que teve com o anúncio das novas diretrizes para deportação foi o de que o seu filho não estava registrado como brasileiro. “Eu não achava que tinha razão para fazer isso, já que não vamos ao Brasil”, disse a mineira, que não pisa no país de origem há 16 anos. Sem documentos, ela agora não tem garantia de que voltará aos EUA caso viaje ao exterior. 

Dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil mostram que 2.406 crianças foram registradas nos consulados desde novembro, quando Trump venceu a eleição, até quarta-feira, dia seguinte à edição das novas diretrizes para deportação, o que representou alta de 7% em relação a igual período de 2016. 

Mas o número de registros deve aumentar. “As pessoas estão desesperadas”, disse Juliana Silva, que trabalha no Brazilian American Center em Framingham, cidade próxima a Boston que tem uma das maiores concentrações de brasileiros nos EUA. A entidade auxilia a comunidade na preparação de pedidos para o consulado. Juliana disse que na quarta-feira foram solicitados 150 documentos, o triplo do normal. Com as novas regras, quase todos os imigrantes em situação irregular estão sujeitos à deportação. O único grupo protegido são os que entraram no país com menos de 16 anos de idade no período anterior a 2007. 

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