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Notícias / Política

Taquiprati: O testamento do Judas e o Serra Velho

Leia a coluna Taquiprati deste domingo, 16 de abril, do Diário do Amazonas 

domingo 16 de abril de 2017 - 7:45 AM

Da Redação / portal@d24am.com

José R. Bessa Freire

Sábado de Aleluia. Tradicional malhação do Judas. No bairro de Aparecida, em Manaus, o boneco pendurado no poste trazia o testamento no bolso, escrito pelo Edilson, o gaguinho, com estrofes sem um só verso de pé-quebrado. O gênio da poesia popular, irreverente e atrevido, resumia intrigas políticas e fofocas do bairro. Não poupava ninguém, nem ele mesmo.

Depois da leitura pública do testamento e da queima de Judas, iniciava a cruel cerimônia do “Serra Velho”. Na madrugada, jovens com serrotes, pedaços de pau e latas faziam barulho infernal na frente da casa do morador mais idoso – só respeitavam aqueles doentes - quando então cantavam:

- As caveiras do outro mundo / vieram lhe dizer-êêê / que agora neste ano / você vai morrer-êêê.

Depois gritavam em coro:

- Encomende a alma a Deus, porque seu corpo já não vale nada.

Alguns velhos entendiam como gozação e até apareciam na janela para um dedo de prosa. Outros se irritavam, como dona Maria Rosa, que jogava o conteúdo de um penico sobre as “aves agourentas”. Psicografado pelo Edilson, apresento-lhe aqui o testamento do Judas de 2017.

1. Há dois mil anos me malham
Muda o mundo, pra mim nada
Chega o sábado de Aleluia
E me enchem de porrada.

2. Mas antes de me ferrarem
E morrer mais uma vez
Eis aqui o inventário
Do que eu lego pra vocês. 

3. Ao Trump bundão eu deixo
O muro de Jericó
E a espada de Herodes
Pra enfiar no fiofó.

4. A ti, Temer, legar-te-ei
Minha corda de enforcado 
Pendurar-te-ás na figueira
Seu traíra desgraçado. 

5. Ao “Índio” Eunício deixo
A Funai, só de pirraça.
Que ela poupe os índios,
Mas acabe com tua raça. 

6. Renán Calheiros é quem herda
Um implante de pentelho, 
Feito com verbas do Senado, 
Com ele eu me aconselho.

7. Ao Rodrigo, o “Botafogo”,
Vil sucessor do Cunha
Deixo o dedão do Temer
Pra rasgar o tu com a unha. 

8. Ao Cunha, que preso não está
Só é usufrutuário da cela.
Lego meu caixão de defunto
Para quando espichar a canela. 

9. Aos da lista do Fachin
Dou um penetrante créu
Com delação premiada
Lego o atestado de réu. 

10. Oh ministros e parlamentares!
Deixo-lhes o meu Caixa Dois
Com propina milionária 
Sois ladrões, ora pois pois. 

11. Ao Eliseu Padilha, o “Primo”,
Amigo de Temer, de FHC,
Deixo-lhe o balcão de negócios
E da Odebrecht o seu guichê. 

12. A Odebrecht atirou
O pau no gato te-otó
Atingiu Moreira Franco
O Angorá do quiproquó. 

13. Ao Jucá que a falcatrua
Fez sair da pindaíba 
Deixo a suruba com Cunha
Na prisão de Curitiba

14. O Lula “amigo” herda,
Um tríplex em Guarujá,
Um sítio em Atibaia
Até tu comeu o jabá? 

15. As trinta moedas de prata
E o caroço desse angu
Deixo pro Sérgio Cabral
Curtir no spa de Bangu.

16. Ao outro Sérgio, o Cortes,
Dançou em Paris no inverno.
Deixo a Fatura Exposta
Pra bailar lá no inferno.

17. Ao Moro, o vaza a jato,
pra Rede Globo vaza veloz
Lego tua foto com Aécio 
Tão promíscua e tão atroz.  

18. Ao “paladino da honradez”
Ao Collor das Alterosas
Ao Aécio, tucano e corvo,
Deixo propinas fuderosas.

19. Para Alexandre de Moraes
O plagiador kinder-ovo
Deixo o evangelho de Lucas
Pra copiar tudo de novo.

20. Gilmar Mendes a ti deixo
O exame de coproscopia
Da tua diarreia verbal
O Janot tem merdofobia.

21. Que o pato da FIESP fique
Com os seis milhões do Skaf
Ele enganou os paneleiros?
Que da prisão não me escape.

22. Anastasia, tu finges ser
Um santinho do pau ôco
Encheste a burra de grana
Taquiprati o meu cotôco.

23. Deixo a Arena da Amazônia, 
Ao senador Braga, o Dudu
Com a superfatura exposta
Que ele vá tomar na rima. 

24. Lego ao senador Omar Aziz
A ponte superfaturada, viu?
Com a propina embolsada
Vá pra ponte que se partiu.

25. À Vanessa e ao Eron
Que estão na lista do Fachin
Deixo um capital polpudo
Em Moscou ou em Pequim.

26. A ti José Melo Merenda,
Estadista de igarapé
Deixo as verbas desviadas
Para ser cassado pelo TSE.

27. Ola-lá, olha o boi, o que te dá?
Eu tirei da algibeira
A propina do Caixa 2  
É para o Cabo Pereira.

28. Paguei, paguei, paguei
Paguei torno a pagar. 
Ao Alfredo Nascimento
Ao Dudu e ao Omar.  

29. Ao prefeito Artur Neto
Deixo um resto de decoro
Vai aposentar o kimono
Depois de se ver com o Moro.

30. Por criticar o Artur na Lava Jato
Ao Marcelo Ramos, o velho novo
Pra lembrar seu amigo Buchada,
Deixo-lhe uma catuaba com ovo

31. Aos paneleiros que pouparam
O Barrabás, grande ladrão.
Deixo meu arrependimento
Para que gritem: Fora Poltrão.
 
32. Ao José Mayer assediador
Que diz estar arrependido
Deixo Madalena, a pecadora
Para testar se é bandido. 

33. Lá onde perdi as botas
Lego ao povo brasileiro
A desconfiança nesses pulhas
A esperança do testamenteiro.

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