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Dança como forma de transformação

Projeto do cineasta amazonense Aldemar Matias busca mostrar como a arte cênica consegue quebrar os tabus do conservadorismo e do patriarcado em diversas regiões da América do Sul

segunda-feira 20 de fevereiro de 2017 - 8:00 AM

Bruno Mazieri / plus@diarioam.com.br

A obra busca estimular a interação entre países vizinhos. Foto: Divulgação

Matéria atualizada às 19h30

Manaus - Morando em Barcelona, na Espanha, desde janeiro de 2016, onde foi cursar mestrado em direção de documentário, o cineasta amazonense Aldemar Matias está prestes a iniciar seu mais novo projeto, devidamente batizado de ‘Pa’lante’, no qual busca mostrar de que forma a dança consegue proporcionar transformações políticas, longe de partidos ou palanques, no cotidiano de cinco cidades da América do Sul.

A série, que será divida em cinco capítulos, cada um com 26 minutos, foi contemplada na categoria Linha de Produção de Conteúdos destinados às TVs Públicas, do programa ‘Brasil de Todas as Telas’, da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Além de Matias, fazem parte do projeto Marcos Tupinambá e Liliane Maia. “As gravações acontecerão entre março, abril e início de maio e passaremos pelo Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia e Equador, sempre apresentado um personagem diferente e oriundo daquele país”, revelou.

Ainda segundo ele, a série é uma espécie de realização de uma obsessão, como ele mesmo descreveu. “Na verdade, ela é a reunião de algumas obsessões que tenho há algum tempo. Acho que a obsessão é um sentimento saudável quando se trata de um projeto realizado a longo prazo, pois é a garantia de que o desejo por ele será mantido até o final”, explicou, salientando que entre essas fixações estão a dança e a junção de países da Amazônia Internacional em um obra audiovisual.

“Há pelo menos dez anos eu já sentia a necessidade de criar uma obra que estimulasse a inteiração entre esses países vizinhos e ‘hermanos’, que ignoramos. Estamos do lado da Colômbia, mas temos o mesmo preconceito e construção preconceituosa sobre o país, de quem mora no Japão: ‘Ah, não vou lá porque as Farcs vão me matar’. O pior é que não temos nem interesse em romper isso. Então, escrevi a série pensando em ‘dar liga’ entre esses países e nunca foi tão relevante pensar em fronteiras em linhas de união e não de divisão”, dispara o cineasta.

Outro ponto que Matias abordou, e que é de extrema importância, é a transformação da política por meio da arte. “Essa mudança não necessariamente deve ser feita em um palanque ou em um partido, mas no cotidiano. Serão jovens que desafiam as tradições da dança, em seus países, mas que entendem que a cultura é mutável e que eles não precisam se adaptar a uma regra patriarcal da cultura da dança”, disse.

Como exemplo, Matias usou a Danzaq, uma dança tradicional do Peru e que é somente para homens. “Eles representam o Dom Juan que seduz as jovens, conquista as casadas e consola as viúvas. Mas agora já existem mulheres participando e estão rompendo com as regras de como ela é feita tradicionalmente”.

A obra, que recebeu a verba de R$ 400 mil, será dirigida por Matias, que contará, nas viagens, com a presença de Marcos Tupinambá. “Eu faria a direção e a direção de fotografia e o Marquinhos entra na produção/roteirista. Possivelmente vamos contratar pesquisadores e técnicos de som em cada uma das regiões pelas quais passaremos. Já a Liliane fica na base, em Manaus, prestando suporte”, detalhou. A dupla permanecerá durante dez dias em cada país.

A exibição da série está prevista para 2018. “Acontecerá nas TVs universitárias, educativas e comunitárias de todo o Brasil. Inclusive isso é uma determinação dessa linha da Ancine, algo que acho de extrema importância”, finalizou. Entre as referências do projeto estão o filme ‘Billy Elliot’, de Stephen Daldry, e o documentário ‘Pina’, de Wim Wenders que mostra a vida e a carreira da coreógrafa Pina Bausch.

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