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Danilo Caymmi faz bela entrega a Jobim em seu novo álbum

‘Danilo Caymmi canta Tom Jobim’ é um grande disco de voz, violão, flauta e eventual violoncelo, tocado por Hugo Pilger

domingo 5 de março de 2017 - 1:00 PM

Estadão Conteúdo / portal@d24am.com

Em ‘Danilo Caymmi canta Tom Jobim’, o artista tem um cuidado meticuloso com as melodias que o compositor escreveu. Foto: Divulgação

Por Julio Maria

São Paulo - Danilo Caymmi tinha apenas 16 anos quando esteve diante de Tom Jobim, profissionalmente, pela primeira vez. Era 1964 e seu pai, Dorival, gravava um disco em família com o maestro. ‘Caymmi Visita Tom’ tinha produção de Aloysio de Oliveira, contrabaixo de Sergio Barrozo, baterias de Edison Machado e Dom Um Romão e um senhor resto que ficava nas mãos do clã: voz de Nana Caymmi, violão de Dori, flauta de Danilo e a presença da matriarca Stella Caymmi, além do próprio Dorival. Danilo era um quase estranho no ninho, por mais Caymmi que tivesse nas veias. Pensava em fazer, como muitos compositores, faculdade de Arquitetura porque a mãe queria, um dia, dançar a valsa dos formandos. Tinha seis meses de flauta quando chegou inseguro para as gravações de músicas como ‘Inútil Paisagem’, ‘Só Tinha de Ser Com Você’ e ‘Sem Você’.

Estar perto de Tom, ele lembraria, foi transformador. Além de vencer a insegurança, Danilo sentiu-se valorizado. Tom falou bem de sua flauta e de sua voz. “Ele me escolheu depois para tocar na Banda Nova”, lembra o músico sobre os anos que formou o grupo de apoio de Tom ao lado de um povo que tinha Paulo Jobim (violão), Paulo Braga (bateria) e Jaques Morelenbaum (violoncelo).

É daí que vem Danilo Caymmi, de outra costela de Tom Jobim. E saber de seu passado é precondição quase obrigatória para se ouvir as entrelinhas de ‘Danilo Caymmi canta Tom Jobim’, seu novo álbum. Não é mais uma releitura de obras do maestro, e mais do que o trabalho de um fã. Danilo conhece aquelas canções, deu vida a elas na presença do próprio Tom, e tem um cuidado meticuloso com as melodias que o compositor escreveu. Não é algo tão simples de se ver. Sobretudo as cantoras que se aventuram por Jobim acabam reproduzindo notas equivocadas em lugares errados, como se fossem as verdadeiras.

Danilo não é apenas afinado. Sua voz grande, menos grave do que o violoncelo que sai do canto do irmão Dori e menos dramática do que a dolorosa interpretação da irmã Nana, canta tudo dentro de um conceito arregimental do menos é mais.

Seu repertório abre com ‘Bonita’, segue com ‘Ela é Carioca’ e corre por ‘Estrada do Sol’ (com a voz da convidada Stacey Kent), ‘Água de Beber’, ‘Luiza’, ‘Querida’, ‘Chora Coração’, ‘Tema de Amor de Gabriela’ e ‘Derradeira Primavera’. Tudo arranjado para, além da voz e da flauta de Danilo, o violão de Flávio Mendes(criador dos arranjos) e o violoncelo de Hugo Pilger.

As origens de Danilo como cantor, trilhando seriamente o caminho apontado por Jobim a partir de 1968, com a conquista do terceiro lugar no 3º Festival Internacional da Canção com ‘Andança’, defendida por Beth Carvalho e criada em parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, poderia ter tido um dilema. Ser Caymmi em meio a tantos, com qualidades de timbres parecidos, poderia desencorajá-lo a forjar-se como artista. “Nunca foi um problema, e há algo do qual as pessoas se esquecem. Grande parte desse meu mergulho no canto vem de minha mãe. Ela tinha uma interpretação talvez ainda mais sofisticada do que meu pai. Eu a ouvi cantar muitas vezes músicas de Tom Jobim”. Dori seria, para ele, mais próximo ao pai e Nana, uma mistura dos dois. Alice, a terceira geração, filha de Danilo, já pertenceria a outro desdobramento.

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