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Mulheres relembram barreiras para alcançar espaço no mundo da música, em Manaus

Artistas relembram alguns percalços e superações e deixam lições para quem, como elas, acha que lugar de mulher também é na música

domingo 5 de março de 2017 - 2:00 PM

Kamilla Vieiralves / portal@d24am.com

Dificuldades enfrentadas incluíam o costume do público, que era habituado com figuras masculinas em cima do palco. Foto: Divulgação

Manaus - Na próxima quarta-feira, 8 de março, será comemorado o Dia Internacional da Mulher. A data teve origem com manifestações de mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho, durante a Primeira Guerra Mundial (1917). A manifestação principal, que contou com mais de 90 mil russas, ficou conhecida como ‘Pão e Paz’, sendo este o marco oficial para a escolha do dia, oficializado em 1921.

Mas se engana quem pensa que a realidade seja muito diferente do passado. Especialmente se as mulheres em questão buscam revolucionar uma ideia, como é o caso de Bianca Caggy, Dany Costa e May Satier, com a música e o rock. Contando um pouco do que viveram no mundo da música, elas relembram alguns percalços e superações e deixam lições para quem, como elas, acha que lugar de mulher também é na música.

Os começos foram diferentes: Bianca começou participando de concursos de karaokê e acabou convidada para formar a banda Caggy; May e as meninas da banda Lótus só queriam se juntar para fazer um especial; e Dany Costa e a banda Roxie tinham vontade de tocar aquilo que elas mais gostavam de ouvir em casa. Mas as três acabaram no palco, de frente para a plateia e foi aí que as experiências começaram, enfim, a ganhar forma.

 

 

(Re)começo

“Eu fui convidada para tocar por uns rapazes que já eram conhecidos na noite e nos colocaram no Porão do Alemão. Existia uma expectativa muito grande por eu ser uma mulher cantando rock. Recebi muitas críticas nas redes sociais, por começar já em uma casa grande na cidade, onde muita gente leva anos para tocar. Eu tinha um visual bem feminino também, usava vestido, salto, maquiagem e muita gente achou que eu não servia, por causa disso”, relembra Bianca, que emenda: “Quase desisti”.

Para tentar se adaptar, ela fez mudanças, mesmo que não correspondessem com a sua personalidade. “Me faziam cantar um repertório mais pop e, aí sim, com o visual bem feminino, diziam que o público ia me aceitar e responder melhor, mas isso não aconteceu”, conta a vocalista.

A mudança só veio mais tarde quando, após o fim da Caggy, ela decidiu começar de novo. “Foram dois anos com a banda e, no ano passado, ela terminou. Então, eu comecei a cantar um repertório acústico, com um guitarrista, em barzinhos. Foi como se eu começasse de novo, por onde a maioria começa”, afirma Bianca. 

“Depois, surgiram outros músicos e nós decidimos montar uma banda. Dessa vez, eu não precisava ter medo do que ia cantar. Apesar de ser mulher, escolhi vocais masculinos e vamos tocar! Deu supercerto e nós tivemos uma aceitação de 100%”, completa.

 

 

Superando as desconfianças

“O início sempre é difícil, para qualquer banda. A questão de sermos mulheres criava uma curiosidade e desconfiança: ‘O que essas meninas vão tocar? Será que essas meninas sabem tocar?’”, lembra May Satier, sobre o início da banda Lótus.

A grande questão, segundo ela, nem era passar pelo crivo das casas de shows da cidade, mas de um público que era muito acostumado a figuras masculinas em cima do palco. “Acredito que as casas de shows gostam de ter bandas diferentes na programação. O preconceito que chegamos a receber foi por parte das pessoas. Embora não aconteça com frequência, já recebemos comentários como: ‘Ficam melhores na cozinha’”, revela.

O comentário, que pode ser um golpe pesado nos sonhos de uma banda iniciante, foi uma barreira superada e elas acabaram, com o tempo, ganhando espaço e aceitação. “Para comentários maldosos e sem qualquer crítica construtiva, a gente procura não dar atenção. Infelizmente, não se pode agradar a todos, por isso, procuramos focar no que importa. Não somos perfeitas, mas a gente ama o que faz, então acredito que passamos isso quando tocamos e as pessoas passam a nos acompanhar nas redes sociais e nos shows”, afirma May.

 

 

Caminho tranquilo

Já para Dany Costa, da banda Roxie, a trilha parece ter sido mais tranquila. Ela conta que nunca sentiu o peso do preconceito em torno de uma formação feminina — que, hoje, não é mais realidade no grupo. No entanto, segundo ela, ainda é difícil encontrar mulheres que se aventurem nessa empreitada. 

“Não tem tantas mulheres que tocam assim. Na época que a gente começou, tentamos montar a banda só com mulheres, porque gostávamos do vocal feminino. Não existia isso no mercado e as que existiam cantavam mais pop do que rock. Passamos, então, a puxar mais para o rock, com cantoras, na época, menos conhecidas, como Alanis (Morrisette) e The Cranberries”, relembra. “Chegamos a ter duas formações só com mulheres, mas, quando precisou mudar, acabou entrando um homem para cumprir alguma função”, completa.

Já são mais de 13 anos tocando na noite manauara e tantos shows que ela já perdeu a conta. Mesmo assim, a ideia de uma banda formada apenas por mulheres não morreu e ganhou novo fôlego, no ano passado, com o projeto ‘Jose Phinas’. “Nesse grupo, a gente toca de tudo: pop, rock, brega, carimbó. É um show animado, onde a gente toca aquilo que as pessoas querem escutar”, conta Dany.

 

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